Tiago: “A deficiência é a maior minoria, mas a menor do ponto de vista mediático”

O toque não solicitado é uma das microagressões mais frequentes para quem vive com o auxílio de uma cadeira de rodas, afirma Tiago Fortuna, fundador da Access Lab. Isso e a palavra que impede que a sociedade seja mais inclusiva: “Deficiente”.

 

De todas as vezes que alguém lhe empurra a cadeira de rodas, mesmo depois de Tiago dizer que não é necessário, ou insiste em ir buscar-lhe um copo de água, quando ele consegue fazê-lo, está a cometer uma microagressão. Não é maldade, mas o excesso de cortesia esconde uma realidade comum aos mais de um milhão e 700 mil residentes em Portugal com algum tipo de incapacidade, segundo os Censos de 2021: o capacitismo, isto é, o preconceito e a discriminação sociais em relação às pessoas com deficiência.

“A deficiência não é rejeitada pela sociedade, foi assimilada por ela. Quando digo “assimilada” significa que achamos que as pessoas com deficiência são dependentes e, portanto, têm de cuidar de nós”, explica Tiago Fortuna, 30 anos, fundador da Access Lab, uma organização que quer melhorar o acesso à fruição cultural de pessoas com deficiência e surdas. Devoto a uma “Santíssima Trindade”, constituída por Madonna, Beyoncé e a cultura, é licenciado em Ciências da Comunicação e pós-graduado em Comunicação de Cultura. Logo que terminou o primeiro curso, em 2015, ingressou num estágio profissional numa agência na área da assessoria de imprensa e comunicação estratégica e por lá ficou mais cinco anos, trabalhando com vários nomes da música, desde Ana Moura a Tigerman. 

Em 2020, a pandemia trocou as voltas à cultura e a Tiago, que ficou sem emprego e “muito tempo para pensar”. Foi durante esse retiro que decidiu dedicar-se mais à acessibilidade e criou a Access Lab por considerar não haver igual oferta no mercado. “Hoje percebo que para resolvermos o problema da cultura, temos de resolver também o problema da exclusão social em geral”, explica. “Se as pessoas não tiverem meios de chegar a um espaço cultural ou não tiverem dinheiro para comprar o bilhete, de nada vale estarmos a trabalhar na cultura”.

Toda a vida tem sido pautada pela condição de como se move na sociedade: numa cadeira de rodas. Em 2023, conseguiu ter finalmente um assistente pessoal, previsto na lei, um profissional que recebe um ordenado para o acompanhar no dia a dia. Este “projeto maravilhoso” aumentou a sua liberdade: “vivemos nos nossos termos, definimos aquilo que queremos fazer, como é que saímos de casa, em que condições é que saímos de casa”.

Esta liberdade contrasta com a perceção que a sociedade em geral tem das pessoas com deficiência e, por isso, as microagressões são constantes e os media fazem parte deste processo porque insistem em usar termos como “deficiente” ou em representar esta minoria como uma dualidade entre heróis ou coitadinhos. “Os media são talvez o primeiro espaço a mudar, porque a representação que a sociedade faz das pessoas com deficiência é muito redutora. A deficiência é a maior minoria, mas a menor do ponto de vista mediático. Não me sinto representado.”

O próximo passo é comum ao passado: mudar mentalidades. “Isso passa por deixar de a sociedade excluir as pessoas com deficiência e passá-las a considerá-las potências económicas”, garante.

Não é por isso, no entanto, que se deve apagar a História pois acredita que filmes como os do realizador Pedro Almodóvar, que chegou a ter atores heterossexuais a representar transsexuais, abriu caminho para outros projetos mais inclusivos. “O Forrest Gump é um filme capacitista, mas não deixo de o achar incrível.”

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