Um dos maiores projetos fotovoltaicos em desenvolvimento no país colocou a Beira
Baixa em estado de alerta. A contestação tem levado centenas de pessoas às ruas, em
várias localidades da região, unidos pela denúncia da falta de diálogo e pelo receio
quanto ao seu próprio futuro.
A chuva cai sobre o Fundão, castigando a tarde cinzenta, mas ninguém arreda pé. Sob
capuzes e cartazes improvisados, o som que se destaca não é o da água no asfalto – é o de
centenas de vozes. Em português, inglês, neerlandês e francês, o “Não à Sophia!” repete-se
em diferentes sotaques. Cada um dos manifestantes carrega consigo algo que não cabe num
cartaz: raízes, memórias e tradições.
Os primeiros acordes surgem agora tímidos. Depois ganham corpo: pandeiretas, pífaros e
panelas criam uma pulsação coletiva que empurra a manifestação pelas ruas. Passa pela
estação de comboios, símbolo antigo de partidas forçadas, e segue até à Câmara Municipal.
As pessoas avançam num ritmo acelerado, como se a terra lhes marcasse o passo. Entre os
guarda-chuvas coloridos, ergue-se “A verdadeira energia vem do respeito pela Terra” e
“Salvem a Beira Baixa!!”.
O motivo da revolta é claro. O anunciado megaprojeto fotovoltaico, a Central Solar Sophia,
não é visto por muitos como energia limpa, mas como uma ameaça de transformação
profunda da paisagem, das aldeias e da vida quotidiana. Mesmo num sábado de inverno, onde
a persistência é posta à prova, mais de duzentas pessoas juntam-se para dizer que o futuro da
Beira Baixa deve ser decidido por quem nela vive.
Francisco Barata, conhecido artisticamente como Xico Gaiato, é um dos mais jovens da
manifestação e, apesar da idade, carrega a inquietação de quem vê a sua terra ameaçada.
Enquanto lidera os arranjos musicais do protesto, transforma a música numa ferramenta de
resistência, afinada pelo amor ao lugar onde cresceu. Entre o som do bombo e o eco dos
gritos, lança a pergunta que o consome: “O que é que vai ser da minha terra que foi sempre
tão verde? Onde está o sustentável? Isto não passa de um crime ambiental que ninguém quer
saber”.
A Central Solar Sophia integra-se no conjunto de megacentrais fotovoltaicas previstas para o
país. O plano da empresa Lightsource BP antevê uma área total que ultrapassa os 1700
hectares. Destes, cerca de 400 serão ocupados por módulos fotovoltaicos, distribuídos pelos municípios do Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova. A capacidade instalada proposta
ascende aos 867 megawatts, valor que posiciona a Sophia entre as maiores centrais em
desenvolvimento no território português. A infraestrutura inclui ainda linhas elétricas de alta
tensão destinadas ao escoamento da energia produzida, que excedem os 20 quilómetros de
extensão, bem como subestações e acessos internos. A entidade promotora estima um
investimento de quase 600 milhões de euros, atualmente em análise pela Agência Portuguesa
do Ambiente (APA). A escala do empreendimento levou a que se tornasse o projeto com o
maior número de participações em consulta pública da APA registado até hoje no setor das
energias renováveis, totalizando 12.693 contribuições.
A 17 de novembro de 2025, a Agência Portuguesa do Ambiente, juntamente com a
Lightsource BP, realizou uma sessão de esclarecimento online destinada a apresentar o
megaprojeto e responder às dúvidas da população. No entanto, desde o início, o formato
escolhido acabou por limitar a participação dos habitantes. A sessão decorreu com vagas
restritas, impedindo que muitos interessados pudessem assistir. Os participantes que
conseguiram entrar depararam-se com um ambiente marcado pela distância. Os microfones
não foram ativados, impossibilitando intervenções diretas. As perguntas colocadas foram
selecionadas pela entidade coordenadora, o que retirou abertura ao processo e impediu que
dúvidas específicas das populações fossem abordadas.
Durante a apresentação pública do projeto, a Lightsource BP exibiu um diapositivo onde se
viam ovelhas a pastar debaixo dos painéis solares, num cenário aparentemente compatível
com a atividade tradicional. Para Nuno Forner, consultor ambiental e membro da Associação
Zero, esta representação está longe da realidade. Como explica, “são sempre áreas mais
confinadas e os animais gostam de áreas abertas para poderem fugir em caso de ameaça”.
Várias associações alertam para os impactos ambientais associados à dimensão da Central
Solar Sophia. Segundo dados apresentados, o projeto prevê o abate de mais de 1500 árvores
protegidas, entre as quais sobreiros e azinheiras. Graça Passos, responsável da Quercus de
Castelo Branco, alerta que as centenas de painéis fotovoltaicos são um sintoma de como
temos “desequilibrado todo o equilíbrio que o planeta criou ao longo de milhões de anos”. A
produtora cultural acrescenta que “a biodiversidade está a ser perdida a um ritmo sem
precedentes”.
Ao longo de toda a sessão de esclarecimento, a Lightsource BP não mencionou o impacto
térmico associado à instalação do projeto. A questão só surgiu na reta final, como parte das
perguntas enviadas pelo público, quando a empresa acabou por reconhecer um potencial
aumento de três a cinco graus Celsius nas áreas envolventes. Para quem vive no distrito de
Castelo Branco, este número não é abstrato. A 11 de agosto de 2025, o termómetro atingiu
41,8 º C, segundo dados do IPMA. A previsão de acrescentar vários graus a esse limite
acendeu alarmes imediatos na população local.
Onde o calor fica e a informação não chega
Na Orca, o final do dia cai rápido. O frio e o nevoeiro espalham-se pelas ruas desertas. A
Aroma D resiste ao adormecimento da aldeia. É hora de fecho, mas ainda há movimento. A
mercearia, criada em 2017 por Patrícia Galante e pelo irmão, irradia um calor inesperado que
contrasta com a temperatura exterior. O espaço é quente o suficiente para dispensar casacos e
este pequeno detalhe ilustra os desafios que Patrícia enfrenta nos meses de verão. “Estamos
numa zona bastante quente. Ter mais cinco graus não é agradável”, critica.
Patrícia confessa que só soube da Central Sophia através das redes sociais. Para a
comerciante, o facto de um projeto desta dimensão lhe ter chegado por acaso, no ecrã do
telemóvel, diz muito sobre o processo: “Onde é que as entidades competentes estiveram este
tempo todo?”, questiona. A crítica à forma como o processo foi conduzido não surge apenas
entre os moradores. Nuno Forner reforça que “o diálogo com as populações falhou muito”.
“As pessoas”, acrescenta, “só souberam do avançar dos grandes projetos fotovoltaicos muito
próximo do final dos períodos de consulta pública”.
A mesma inquietação reaparece noutros pontos da região. A cerca de nove quilómetros de
Orca, o ambiente recolhido dá lugar a outro cenário. Na Mata da Rainha, a população junta-se
para celebrar o magusto. Entre o fumo das castanhas assadas, o som da música popular e as
conversas cruzadas, a Sophia surge repetidamente como tema central.
Maria Fernanda está sentada ao lado do braseiro, atenta às castanhas a estalar. No olhar
carrega a história da família, gerações que nasceram e viveram da aldeia. Partiu jovem para
França em busca de melhores condições de vida. Anos depois, regressou, movida pelo amor à
terra onde cresceu. Hoje, aos 74 anos, vive suspensa entre duas emoções. A paz de quem
voltou à terra depois de uma vida inteira de partidas e o desassossego de sentir esse regresso
ameaçado. Na voz, uma revolta de quem já viu o Mundo mudar muitas vezes e receia ter de
abandonar, uma vez mais, o lugar que escolheu para ficar. A moradora tenta vencer o barulho
da animação: “Porque é que os presidentes das Câmaras do Fundão, de Penamacor e de
Idanha-a-Nova nunca disseram nada? Quando a gente esconde estas coisas é porque há um
rato por detrás.”
As perguntas de Patrícia e Maria Fernanda ressoam entre os cidadãos de Castelo Branco. Os
rostos mudam, mas a sensação é a mesma – a de que decisões com impacto profundo sobre o
território foram tomadas à distância, sem tempo, sem escuta, sem diálogo verdadeiro. Esta
perceção acabou por chegar tardiamente às autarquias. Os municípios do Fundão, Penamacor
e Idanha-a-Nova emitiram pareceres desfavoráveis à Central Solar Sophia, mas apenas nos
últimos dias da consulta pública. O primeiro parecer municipal foi emitido por Idanha-a-
Nova, quando faltavam 12 dias para o fim da consulta pública, marcada para 20 de
novembro. A partir desse momento, os posicionamentos sucederam-se em ritmo acelerado. O
último foi tornado público pela Câmara Municipal do Fundão, a 18 de novembro.
Uma contestação que fala várias línguas
A Beira Baixa é hoje habitada por quem ali nasceu e por quem chegou depois. Há quem fale
da terra como quem a herdou e quem a descreva como uma escolha recente. A preocupação,
porém, é comum. Na Mata da Rainha, o magusto torna-se espelho dessa convivência. Muitos
encontraram aqui aquilo que faltava noutros lugares: espaço, silêncio e uma relação próxima
com a natureza. É um modo de vida difícil de imaginar quando a paisagem começa a mudar.
Wini e Freddy escolheram a Beira Baixa como lugar para ficar. Vieram dos Países Baixos à
procura de tranquilidade, deixando para trás os filhos já adultos e o próprio trabalho.
Fixaram-se na Mata da Rainha, convencidos de que ali poderiam construir um quotidiano
simples, ritmado pelas estações e pela paisagem aberta. Durante o magusto, falam com
calma, mas sem esconder a apreensão. “Consigo ver as raposas a correr pelo meu terreno. É
perfeito. É a terra delas, não só a minha”, explica Wini. A possibilidade de a paisagem se
transformar altera essa ideia de pertença partilhada: “Se houver painéis solares à nossa volta,
não acho que continue a ver raposas. Talvez nem água”, acrescenta.
A inquietação não é expressa em tom de protesto, mas em forma de constatação. “Acho que
muita gente vai acabar por se mudar”, reforça Freddy. “Talvez seja isso que eles querem. Nós
escolhemos esta vida. Não escolhemos painéis solares”. A preocupação é transversal, dita em
diferentes línguas, mas ancorada no mesmo território.
Enquanto a consulta pública decorre em plataformas digitais, a contestação faz-se no terreno.
No Fundão, a manifestação mantém o seu curso. Os panfletos continuam a circular de mão
em mão. Alguns são deixados com cuidado nas portas das casas. Outros são colados em
muros e montras fechadas. Não há pressa em ir embora. Pequenos grupos formam-se, conversam, trocam contactos e combinam próximos passos. O protesto dissolve-se
lentamente, como se recusasse desaparecer.
A música acompanha este prolongamento. Quando os cartazes baixam, ficam os sons. Não há
discursos nem palavras de ordem. A tradição ocupa o espaço que antes foi de reivindicação.
Aquela terra não é apenas um lugar de passagem ou protesto, mas um território vivido. No
meio do círculo que se forma, Francisco dança ao ritmo do bombo. Só depois volta a marcar
o compasso. Para o jovem, a mobilização não pode esmorecer: “O povo ainda tem poder. O
sistema está a prender-nos. Tem de ser o povo a ir para a frente e bater o pé.”
A contestação à Central Solar Sophia não se limita à rejeição de um projeto concreto. Para
muitos, representa uma discussão mais ampla sobre o futuro da região. Para o músico de 22
anos, o impacto ultrapassa a paisagem: “Se estes painéis forem construídos, qual é o verde
que me resta? Qual é a natureza que me resta para poder viver tranquilo e são?”, questiona.
Na sua leitura, as consequências recaem sobretudo sobre quem ainda procura um lugar para
ficar. “Os jovens também perdem muito. Ficam sem alternativas e vão acabar por ter de ir
para as cidades, mesmo que não queiram”.
